O início de um ano lectivo é dos momentos mais estimulantes, mas também aterradores. Muito se espera, muito se adivinha. É o momento de entrar a pés juntos no trabalho de satisfazer os objectivos que combinamos concretizar. E a par de toda essa correria, azáfama de notas, t.p.c.’s, projectos e avaliações, precisamos parar e respirar, precisamos de uma fuga para descobrir que somos mais do que o que somos numa sala de aula, as negativas e as positivas, os testes, as matérias chatas, as boas, as disciplinas complicadas que nunca nos ensinaram a gostar, os professores que vivem as suas lutas e não têm tempo para estimular, alguns, o melhor aluno, o pior aluno, as faltas não justificadas, a ausência, o desinteresse, as escolas que paralisam, o tempo sufocado com a escola, sufocado com explicações, actividades extra-extra-extracurriculares, o tempo apertado para não fazer mais nada e ainda assim ousar descobrir que há mais, muito mais para desafiar e alcançar.

O teatro é dessas actividades extra-extra que nos desafia e nos tira da bolha de conforto, nos leva para uma qualquer floresta negra, para tentarmos sair dela transformados. É aquela palavra gorda que não significa realmente nada antes de se ter entrado pela primeira vez numa sala de ensaio, antes de se ter improvisado sobre qualquer coisa aqui e agora e antes de se ter levado para cena o corpo e a voz, com outro corpo e outra voz. Significa liberdade, tolerância, recreio, suor, reunião, personalidade, grupo. Significa disciplina, esforço, compromisso, investimento. Significa semelhança e diferença. Significa fingir de conta, mas fingir de verdade. Significa dança, futebol e basquete. Significa música e silêncio. Significa dor e mágoa, riso e histeria. Significa mais, muito mais. Teatro é uma palavra gorda porque cabe nela o mundo todo.