#3

É. Necessário. Interferir.
Recentemente redescobri duas coisas: primeiro, a misoginia e a homofobia têm a mesma origem; segundo, a masculinidade, socialmente imposta, é uma máscara perigosíssima. É assustador, no mundo intenso das redes sociais em que vivemos hoje, falar tendo de ter cuidado com as palavras, é assustador. É assustador pensar que esta criatura que criámos – a internet – serve a muito mal, mais do que a muito bem, às vezes e que tantas vezes. Criamos monstros que se escondem por detrás de ecrãs, falsamente protegidos, que abusam e pressionam a fragilidade e sensibilidade de outros não tão fortes, não tão decididos, monstros esses que se escondem eles próprios atrás de ódio, dor, abuso, abuso físico, emocional, social, são escrutinados e escrutinam, são menosprezados e menosprezam: “não és homem, não és nada”, “pareces uma menina”, “menino da mamã”, “mariquinhas”, “faz isto ou aquilo, se és homem”, “um homem quer-se assim”, “uma mulher quer-se assado”… etc. Há tanta coisa errada na nossa construção social.
É necessário interferir.
Aprendi uma vez que o teatro era o privilégio dos fortes. Não é nada! O teatro é um privilégio. Pronto, é. Mas também são tantas outras coisas. O teatro, na minha experiência, e, em contexto de formação, é só o sítio livre, de aceitação, de tolerância e de generosidade mais poderoso e um aliado incrível, principalmente na formação de jovens. Se deixarmos conseguimos olhar os outros com vontade de aprender com os outros, com admiração, orgulho, inspiração e transplantar isto para o dia-a-dia. Sermos quem somos. Sem olhar para o lado, sem desconfiar, sem esconder, sem ter medo. Há muita coisa errada na nossa construção social, mas vem de longe, de lá longe, vem também dos avós, ti@s e pais, vem das tradições que pararam no tempo e não se transformaram, vem da ignorância. Também aprendi que o conhecimento não ocupa espaço e somos todos adaptáveis e maleáveis. O menino não tem de se comportar como um menino, a menina não tem de se comportar como uma menina. Não tem de jogar à bola, não tem de arrumar a casa. E pode fazer ambos! Vestir todas as cores, pintar-se como quiser e usar o que quiser. Ser um homem que luta e grita pela igualdade de direitos. Ser um homem que não cumpre os rótulos de masculinidade estabelecidos. Ser uma mulher que não é menos mulher por não ter filhos. Ser uma mulher que faz o que quiser com o seu corpo.
É necessário interferir.
Respeitar e ser amável são dois conceitos mesmo muito simples. Nem sempre é fácil mudar, a “velha guarda” não é mesmo, mas temos de aprender a comunicar de forma diferente, principalmente com as crianças ou não é aí que tudo começa? Eu tenho trinta anos, sou mulher, baixa, actriz, formadora. Uns dão-me 18 anos, uns 25, às vezes bem menos e ainda me acontece, de quando em vez, ser diminuída por ser mulher, baixa, actriz, formadora (e aparentemente-parecer-bem-mais-jovem-sem-maldade-inocentemente-que-fofinha), por adultos ou por jovens, na profissão e na sociedade. Eu tenho alunos que são diminuídos porque são mais sensíveis, introspectivos, fazem teatro… E outra vez “parecem isto, parecem aquilo”… Porque é que a introspecção é tão pejorativa e a extroversão não? Eu tenho alunos que não gostam muito de falar, porque não têm nada a dizer até descobrirem que têm espaço e opinião para serem ouvidos e validados! Eu tenho alunos que fazem desporto e fazem teatro, rapazes e raparigas, que estudam ciências ou letras, geeks, cantores, bailarinos, aspirantes a actores ou educadores ou engenheiros. Alunos que não cederam a pressões sociais e recusaram beber ou fumar além fronteiras, numa viagem de escola, comigo a depositar total e cega confiança neles. Todos com uma vontade: de ser quem são sem rodeios. Dar e receber. Tratar como gostamos de ser tratados.
É. Necessário. Interferir.
Vamos criar filhos que não tenham medo de ser sensíveis ou medo de não gostar do que todos gostam. Vamos criar filhos que nunca deixem de fazer perguntas, nunca deixem de se questionar, ter opiniões, experimentar, nunca deixem de dar abraços e dizer “gosto de ti” ou “eu amo-te”, que falem sempre que queiram falar e que nunca deixem de mudar de ideias se for preciso mudar de ideias. Vamos criar professores que vejam os alunos e não os números – não apreendemos todos da mesma forma! Vamos criar pais, professores, treinadores, mentores que interfiram positivamente na vida dos nossos filhos e eduquem, sem doutrinas, e não criem barreiras nem de género, nem de nada, pelo contrário estimulem e inspirem o desenvolvimento pessoal. Somos human@s, som@s alt@s, baix@s, loir@s, moren@s, ruiv@s, negr@s, LGBTQ+, mães, irmãos, pais, médic@s, cantores, actores, padeir@s, polícias, condutores, cozinheir@s, somos human@s.

#2

O início de um ano lectivo é dos momentos mais estimulantes, mas também aterradores. Muito se espera, muito se adivinha. É o momento de entrar a pés juntos no trabalho de satisfazer os objectivos que combinamos concretizar. E a par de toda essa correria, azáfama de notas, t.p.c.’s, projectos e avaliações, precisamos parar e respirar, precisamos de uma fuga para descobrir que somos mais do que o que somos numa sala de aula, as negativas e as positivas, os testes, as matérias chatas, as boas, as disciplinas complicadas que nunca nos ensinaram a gostar, os professores que vivem as suas lutas e não têm tempo para estimular, alguns, o melhor aluno, o pior aluno, as faltas não justificadas, a ausência, o desinteresse, as escolas que paralisam, o tempo sufocado com a escola, sufocado com explicações, actividades extra-extra-extracurriculares, o tempo apertado para não fazer mais nada e ainda assim ousar descobrir que há mais, muito mais para desafiar e alcançar.
O teatro é dessas actividades extra-extra que nos desafia e nos tira da bolha de conforto, nos leva para uma qualquer floresta negra, para tentarmos sair dela transformados. É aquela palavra gorda que não significa realmente nada antes de se ter entrado pela primeira vez numa sala de ensaio, antes de se ter improvisado sobre qualquer coisa aqui e agora e antes de se ter levado para cena o corpo e a voz, com outro corpo e outra voz. Significa liberdade, tolerância, recreio, suor, reunião, personalidade, grupo. Significa disciplina, esforço, compromisso, investimento. Significa semelhança e diferença. Significa fingir de conta, mas fingir de verdade. Significa dança, futebol e basquete. Significa música e silêncio. Significa dor e mágoa, riso e histeria. Significa mais, muito mais. Teatro é uma palavra gorda porque cabe nela o mundo todo.

#1

Há distância de um clique conhecemos e aprendemos Há distância de um clique sabemos tudo conhecemos tudo e não sabemos nada não conhecemos nada Há distância de um clique julgamos sentenciamos e condenamos Há distância de um clique declaramos afirmamos e declamamos Há distância de um clique somos e não somos Somos e aparentamos ser Descobrimos e procuramos saber Estabelecemos e ambicionamos ser Somos e conquistamos ser
Neste sítio online onde tudo fazemos, onde tudo somos, onde tudo promovemos e divulgamos eu criei um sítio online onde arquivo o meu trabalho, um sítio online com um pouco do que sou e aspiro ser, um sítio online com um pouco sobre o que fiz, o que faço. A minha humilde experiência rodeada de amigos, família, profissionais e colegas que também fizeram com que eu estivesse onde estou hoje e com quem aprendi tanto e aprendo sempre tanto. “Sou do tamanho daquilo que vejo” e já conto umas grandes histórias… Em frente o caminho.