A Mulherzinha
Uma Sinfonia Kafkiana em Quatro Andamentos e um Intermezzo

Não há como explicar Kafka. Derrota o propósito.

A um construtor de labirintos, a arte que se lhe pede é que nos dificulte a saída. E Kafka é, em grande parte, um genial construtor de labirintos, perdido em si e arrastando-nos a nós com ele, ardente e dolorosamente consciente de que não somos mais do que crianças entregues à sua própria sorte num mundo bizarro, reflexo distorcido daquilo a que gostamos de chamar “razão” ou “sentido”. Ter-lhe-á pertencido uma das vozes literárias que com mais lucidez, ainda que com assinalável ambivalência, nos tenha
puxado o metafísico tapete, pondo a nu a delicada vulnerabilidade com que navegamos uma existência hostil.

Prestando as devidas honras a essa lucidez, “A Mulherzinha” fala sobre o que fala e nada mais, não pretendendo ir além do labirinto. Saídas, ainda que as vislumbremos, sentimo-las, além de distantes, impossíveis. O espectáculo, montado como se de uma composição sinfónica se tratasse, encontra nas palavras de Kafka uma pauta de impotências, palavras essas que usurpámos aos livros, aos contos e aos aforismos e cruzámos com outras, nossas, que àquelas primeiras respondem com as inquietações particulares que a nós nos assombram. Cabe à actriz, espartilhada pelo conceito plástico do “concerto”, encontrar na cena um fio, o fio que, ainda que indicar-lhe a saída não possa, lhe permita, ao menos, continuar em movimento, em direcção não ao exterior, à liberdade, mas ao interior, em direcção a uma qualquer verdade teatral e humana.

Kafka, achamos nós que inadvertidamente, é cruel. Não nos deixa ir embora.
Quer-nos aqui, presos. Leitores leais que somos, antes de tudo o resto, resignámo-nos e, em resposta, na jaula que nos montou, compusemos-lhe uma sinfonia.

Esperamos que goste.

A partir de Franz Kafka
Criação, Adaptação e Interpretação Inês Simões Pereira
Tradução, Criação, Adaptação e Encenação Pedro Galiza
Espaço Cénico e Desenho de Luz  Pedro Morim
Sonoplastia, Fotografia Nuno Leites
Produção Colectivo Grua
© Abril de 2018 – no âmbito do 1º Capítulo da Poética da Palavra | Encontros de Teatro da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão