A Tragédia do Rei Ricardo III 

“Amanhã e amanhã e amanhã
(…)
A vida é só uma sombra ambulante, um pobre actor
Que se torce e retorce a seu tempo no palco
E depois não se ouve jamais: somente um conto
Narrado por um idiota, pleno de som e fúria,
E que nada significa.”
Macbeth, Cena 5, Acto V, de William Shakespeare

O tempo foge. As oportunidades, ao contrário do que muitas vezes se diz, não surgem: fazem-se. E das poucas bençãos, se bençãos se podem chamar, que a vida nos dá há-que se tirar tudo o que se puder. E se essa mesma vida, como o Bardo nos diz, nada mais é que uma sombra ambulante que a seu tempo se desvanece num palco, explodindo em todo o seu esplendor, mas que nada significa, há-que dessa explosão retirar um significado.

Quantos mais “amanhãs” teremos nós? Quantos mais? Para partilhar, para ensaiar, para sermos arrogantes e pensarmos que é possível exigirmos sempre um pouco mais de nós próprios, dos outros, da vida, e concretizar (hoje e hoje e hoje) um sonho? Quantos mais “amanhãs” para ouvirmos o riso uns dos outros, para testemunharmos as forças e fraquezas que nos unem, quantos mais “amanhãs” para gozarmos o privilégio dos fortes que é fazer teatro?

Hoje, desce sobre a garagem Linhares uma noite em que se fará Shakespeare. Ao fim de nove meses de trabalho (parto difícil, muito muito difícil), nasce, hoje, um pequeno filho corcunda de todos nós. E que, como qualquer filho, vamos ver crescer, amadurecer. E, ao contrário da maior parte dos pais, ver morrer. Hoje. É essa a mais perfeita beleza do teatro, o ser efémero, irrepetível, fugaz. Aquilo que hoje aqui fizermos, neste sítio, há-de ser único. Apesar de todos os “amanhãs” que estiverem reservados para nós, hoje fazemos teatro.

Pais abnegados, somos. Não apenas os que aqui falam e escrevem, mas todos os que, ao longo dos últimos nove meses, fizeram de si tudo o que podiam e não podiam para hoje poderem aqui estar. Abnegados, porque não deixaram que este filho, pela força das circunstâncias (ou pela falta dela), pelas impossibilidades, contingências, contratempos, deixasse de nascer. Hoje. Deixamos aqui o nosso mais sincero reconhecimento a cada um que, amadurecido também pela viagem que aqui nos trouxe, vai hoje pisar o chão deste nosso reino de sombras e cimento, desta nossa ruína de fantasmas e vítimas, e, com o seu corpo, a sua voz e o seu espírito, dar à nossa visão desta tragédia a substância e a densidade dos deuses.

A noite avança, já. Nas entranhas deste nosso território de trevas, agita-se já o filho que queremos ver nascer. Antes que mais um “amanhã” traga consigo a luz que esconjura as sombras, vamos libertá-lo para prazer do público. E que possa ele surgir aos vossos olhos como o divinal, resplandecente e fulguroso monstro que é aos nossos.


Ficha Técnica e Artística

Tradução Pedro Galiza
Direcção e Adaptação Inês Simões Pereira e Pedro Galiza
Design de Luz José Macieira
Design de Som e Operação Nuno Pinto de Carvalho
Design de Vídeo e Operação de Vídeo e Luz Nuno Leites
Design Gráfico Telmo Parreira
Interpretação Ana Fernandes, Ana Cláudia Flores, Carlos Terroso, Cláudia Silva, Crestina Martins, Eduarda Cadeco, Inês Simões Pereira, Jaime Delgado, Jéssica Rabaldo, Jorge Curto, José Torres, João Miguel Ferreira, Pedro Galiza e Samir Zidane
Produção Pelintra Teatro d’ A Filantrópica – Cooperativa de Cultura
© 2011

Inês Simões Pereira
actriz · encenadora · formadora · produtora
iinespereira@gmail.com

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